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Crescimento econômico e desedução ambiental

Por Carlos Eduardo Mazzetto Silva*

Parece que estamos vivendo no Brasil, o momento mais obsessivo em relação à promessa e ao desejo, quase patológico, do crescimento econômico. Essa obsessão parece ser mais forte hoje do que na década de 1950, quando depois da 2ª Guerra Mundial, o crescimento econômico virou o mote e o centro do desenvolvimento regional ou nacional e também mais forte do que nas décadas de 1960 e 1970, quando o regime da ditadura militar efetivou o maior milagre econômico brasileiro, consagrando expressões de economistas ainda vivos (e muito vivos) como o ex-ministro Delfim Neto: “primeiro é preciso crescer o bolo, para depois distribuir”. Seria bom perguntar ao ex-ministro e aos atuais também (inclusive ao presidente Lula e demais governantes – parece que todos se tornaram delfinianos), quando é que vamos distribuir esse bolo, porque mais do que nunca há gente se esbaldando na farra do consumo, do desperdício e da ostentação e gente no outro extremo da expropriação, da carência e da pobreza material absoluta. Todos sabemos que o fenômeno da globalização econômica acentuou esse abismo, aqui e no mundo. Constituem-se corporações globais que concentram, progressivamente, mais poder econômico e político.

Mas agora, é hora de novo de reafirmar o crescimento econômico como panacéia para resolução dos problemas do país. E, mais grave, o meio ambiente e as populações tradicionais (portanto, não-modernas, não integradas à racionalidade capitalista e à ordem urbana-industrial de consumo), como as indígenas e quilombolas, passam a ser fatores de impedimento ao “espetáculo do crescimento” (sic!).

A tecnocracia petista fica refém do pensamento liberal de seus aliados do mundo empresarial conservador e do massacre midiático efetivado pelo pensamento único dos analistas econômicos de plantão que vocalizam o coro-panacéia do crescimento econômico todo santo dia em nossos ouvidos.

Por outro lado, dialética e contraditoriamente, o noticiário ambiental vem dando cada vez maior relevo ao consenso científico a respeito do aquecimento global, agora reconhecido até pelo presidente George Bush e, finalmente, foco de sua preocupação.

O assombro, é que ninguém (com raríssimas exceções) relaciona uma coisa com a outra no nosso jornalismo inteligente.

No início da década de 1970, o cientista Georgescu-Roegen publicava o livro The Entropy Law and the Economic Process (A Lei da Entropia e o Processo Econômico). Neste livro, ele já demonstrava como o crescimento econômico, nos moldes urbano-industriais, transformava, acelerada e inexoravelmente, materiais e energias de baixa entropia em outros de alta entropia, o que intensificava e amplificava a produção de calor e, portanto, gerava o aquecimento global, além de ir esgotando as fontes não-renováveis desses materiais e energias de baixa entropia (a matéria organizada e útil). O livro de Elmar Altvater, O Preço da Riqueza (de 1995), atualiza, brilhantemente, essa problemática.

Esse fenômeno é a síntese da crise ambiental porque passa essa civilização moderna-industrial-capitalista, já diagnosticada na década de 1970 (de lá para cá tivemos os maiores índices de aumento de temperatura dos últimos séculos), tendo dado origem ao advento do ambientalismo e à introdução e ascenção das questões ambientais no debate social e nas políticas públicas, levando, inclusive, à criação do mecanismo do licenciamento ambiental, para efetivar uma regulação e um controle ambiental sobre a tendência destrutiva do processo econômico moderno. É uma questão de sobrevivência! Seria importante que os economistas soubessem que não há economia sem recursos naturais, que os “recursos naturais” não estão espalhados aleatoriamente por aí, mas são parte de algo complexo e integrado que chamamos de ecossistemas. Que os ecossistemas brasileiros se formaram bem antes de nossa sociedade urbano-industrial e deram a base e os recursos para ela se constituir. Que a Natureza é anterior à sociedade humana, que o homo sapiens é apenas uma parte (especial e peculiar sem dúvida) dela, fato estranhamente olvidado pelo homus economicus. Enfim, que a ética ecológica (a ética da vida) deve ser anterior e dar o embasamento da ética econômica (como, aliás, fazem as sociedades tradicionais), pois a economia depende da ecologia e não o inverso, embora hoje, dramaticamente, o equilíbrio ecológico dependa em grande parte de como orientamos a economia humana, em função da amplitude de seu impacto na Natureza. Estou falando aqui da economia hegemônica, comandada pelo mundo ocidental-capitalista.

Dessa constatação, poderia vir o sentido mais pertinente da tão propalada, mas pouco materializada, sustentabilidade, como idéia-força transformadora – buscar modelos econômicos adequados à dinâmica dos ecossistemas e, ao mesmo tempo, respeitosos da cultura e dos anseios dos povos que neles vivem. Mais que isso talvez: modelos que partissem de uma construção democrática dos que vivem em cada lugar e de um conhecimento ecológico progressivo e partilhado.

Mas tudo isso está fora do debate público. Parece que vamos ficar devendo isso para a atual e para as futuras gerações - que dívida! Nem a nossa ministra ecologista consegue colocar as coisas no devido lugar, porque a unanimidade burra da obsessão do crescimento econômico cega a todos e todas. E o pior: é a dinâmica global e não local (dos ecossistemas naturais, dos agroecossistemas ou dos ambientes urbanos) ou nacional que define hoje o rumo da economia. É algo de fora dos ecossistemas e dos lugares de vida das pessoas que definem, muitas vezes, o que vai “desenvolver” aquele lugar – é o totalitarismo do pensamento único desenvolvimentista. Não conseguimos colocar a Natureza no centro da definição dos modelos econômicos, ela está sempre a reboque, daí o caráter das medidas que são apenas compensatórias e mitigadoras e daí nosso fracasso em avançar nas questões ambientais e no rumo da sustentabilidade. Agora, nem essas tímidas e paliativas medidas são bem vindas, pois entravam o ritmo do crescimento!!

O planeta continuará esquentando, agora com a contribuição adicional do espetáculo brasileiro, mas não nos iludamos: isso não tem nada a ver nem com melhor distribuição de renda, nem com melhoria da qualidade de vida dos brasileiros. Muito menos com justiça social. É apenas a ressurreição tardia do positivismo do progresso iluminista e da apologia insana do crescimento infinito do pós-guerra, apimentados e abrasileirados pelo velho teorema delfiniano. Haja licenciamento ambiental.

* Professor universitário e consultor, Doutor em Ordenamento Territorial e Ambiental. E-mail: mazzetto7@terra.com.br.


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