GANAC - Slow Food

 

“SLOW FOOD”, MUITO ALÉM DO QUE “COMER DEVAGAR”

 

 A primeira impressão para quem apenas lê o nome “slow food” acredita que este grupo é apenas o oposto de “fast food”, que pratica os bons hábitos alimentares destinado há um pequeno grupo de pessoas, muito caro e pouco acessível. Mas este grupo faz muito mais que isso.


  Fundado em 1986 como uma associação ‘enogastronômica’ pelo ativista alimentar Carlo Petrini na pequena cidade de Bra, situada no norte da Itália, tinha como objetivos iniciais apoiar e defender a boa comida, o prazer gastronômico e um ritmo de vida mais lento. Estas práticas continuam fortes no grupo, mas a filosofia ampliou-se muito, abrangendo a qualidade de vida e o consumo consciente e sustentável. De forma resumida é possível citar a escolha sempre que possível de alimentos frescos, respeito a sazonalidade, preferência as produções locais, comer menos e melhor, reduzir os desperdícios, cozinhar os seus próprios alimentos, treinar os sentidos, procurar e cultivar o prazer, aprender a conhecer os alimentos e quem os produz e respeitar a terra.

  Como filosofia o Slow Food prega que o alimento deve ser bom, limpo e justo. Bom significa apetitoso, fresco e capaz de estimular e satisfazer os sentidos. Limpo significa ser produzido sem exigir demais dos recursos da terra, seus ecossistemas e meio-ambiente e sem prejudicar a saúde humana. Justo significa respeitar a justiça social, o que significa pagamento e condições justas para todos os envolvidos no processo, desde a produção até a comercialização e consumo.

  Por meio de reuniões e encontros os diversos grupos espalhados em 132 países, incluindo, Itália, Alemanha, Suíça, EUA, França, Japão, Reino Unido, Holanda, Austrália e Brasil, desenvolvem projetos com intuito de incluir sua filosofia, pois acreditam que a melhor maneira de conter a onda de alimentação fútil, apressada e padronizada é através da educação. Um exemplo são os trabalhos desenvolvidos com crianças e adolescentes no intuito de mostrar o verdadeiro sabor dos alimentos naturais, desenvolver o gosto por cozinhar suas próprias refeições e treinar os novos profissionais da área.

   No Rio de Janeiro, em escolas públicas existe o projeto Mandioca que educa cerca de mil crianças sobre a cultura e os hábitos alimentares de nosso país. Os cursos permitem aos jovens compreenderem a importância da mandioca de forma divertida através de encenações e demonstrações práticas que o ensinam a cozinhar a tapioca e muitos outros produtos típicos do Brasil. Projetos parecidos são realizados em Dublin (Irlanda), Molo (Quênia), Ontário (Canadá) e Styria (Áustria) que também realizam hortas nas escolas sempre no intuito de levar a este público uma alimentação saborosa, saudável e em harmonia com os ecossistemas que as cercam, garantindo um futuro melhor. Na Itália e na Alemanha este conceito já é introduzido em hospitais.

  Além disso, organizam feiras, eventos e mercados locais e internacionais para mostrar novos alimentos, e produtos alimentícios de qualidade. Nas Oficinas do Gosto é permitido que os participantes descubram mais sobre os alimentos sob a supervisão de especialistas.

  Fora isso, existe as Fortalezas – projetos em pequena escala que ajudam os produtores de alimentos artesanais a preservarem seus métodos de processamento tradicional e seus produtos finais - apoiando pequenos agricultores e “popularizam” suas produções. No Brasil existem algumas Fortalezas em apóio ao cultivo do umbu, arroz vermelho, palmito juçara, néctar de abelhas nativas, guaraná, feijão canapu e castanha do baru, entre outros. O objetivo é garantir o futuro das comunidades locais, organizando os produtores, procurando novos canais de comercialização, promovendo e valorizando sabores e territórios.

  Mas para o cotidiano de qualquer pessoa o Slow Food pode ser aplicado em cada refeição. Esta que deve ser compartilha com a família e pessoas queridas, preparado em casa com alimentos em sua maioria naturais, com tempo suficiente para desfrutar cada garfada e sentir todo o sabor do prato, de preferência sem a presença da televisão. Mesmo vivendo uma vida tão ‘fast’ é possível exigir alguns momentos ‘slow’ e dedicar-se, empenhar-se à eles com mais vontade. Daí o símbolo deste grupo, um caracol, que devagar, vai longe.

  A alimentação está presente em todos e nos melhores momentos da vida, é sempre uma razão para encontrar amigos, celebrar vitórias ou para simplesmente “comer”. Comer remete o passado, mexe com a memória, ensina e mostra novas sensações.

  A preservação do sabor original dos alimentos é um dos pilares mais forte do Slow Food, mas como dito no início este grupo vai além disso, e para quem quer compartilhar deste grupo, sendo ou não sócio é preciso ter apenas duas características, gostar de comer e estar aberto á novas experiências.

 

Patrícia Cristina Cintra Gomes
Nutricionista - CRN3: 24.616

GANAC – Grupo de estudos em Nutrição e Gastronomia da APAN

(Associação Paulista de Nutrição).


 

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